Entrevista com Kátia Adler | 28º Festival de Paris
Paris, 2026.
Kátia Adler e o Festival de Cinema Brasileiro de Paris: quase 30 anos promovendo a cultura brasileira na França
Durante o 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, tive a oportunidade de conversar com uma das figuras mais importantes na divulgação da cultura brasileira na França: Kátia Adler, fundadora e diretora do festival que, há quase três décadas, apresenta ao público francês a riqueza e a diversidade do cinema produzido no Brasil.
A conversa aconteceu em meio à programação do festival, realizado tradicionalmente no cinema Arlequin, em Paris, e revelou não apenas a trajetória de Kátia, mas também os desafios e conquistas de quem dedica a vida a construir pontes culturais entre dois países.

De estudante de cinema a embaixadora da cultura brasileira
Kátia chegou à França para estudar cinema na Universidade Paris 8. Após sua formação, trabalhou com documentários, ficção e também na televisão francesa. No entanto, viver distante do Brasil despertou nela uma inquietação.
Na época, as notícias sobre o Brasil exibidas pela mídia francesa frequentemente destacavam apenas problemas sociais e episódios de violência. Sentindo a necessidade de apresentar uma imagem mais ampla e complexa do país, Kátia inicialmente pensou em distribuir filmes brasileiros na França.
Mas o contexto não era favorável. Durante o governo Collor, a produção cinematográfica brasileira atravessava uma grave crise. Foi então que surgiu a ideia de criar um festival dedicado exclusivamente ao cinema brasileiro.

O que começou como um projeto cultural tornou-se uma referência internacional. E o mais impressionante: todas as edições do festival foram organizadas sob sua direção.
A relação dos franceses com a cultura brasileira
Segundo Kátia, os franceses sempre demonstraram grande interesse pelo Brasil. Essa curiosidade está ligada ao forte vínculo que a França mantém com a arte, a cultura e o cinema.
Ela acredita que os franceses apreciam particularmente a diversidade cultural brasileira. Afinal, o Brasil reúne inúmeras realidades em um único território: o Nordeste, o Sul, a Amazônia, as grandes metrópoles, o interior. Cada região produz histórias, personagens e visões de mundo diferentes.
O cinema se torna, assim, uma poderosa janela para apresentar essa pluralidade.
Um festival que mostra a diversidade do Brasil
Atualmente, o festival exibe dezenas de produções em apenas uma semana. Na edição deste ano, foram apresentados 31 filmes, entre ficções, documentários e comédias.
A curadoria continua sendo realizada pessoalmente por Kátia. Seu objetivo não é privilegiar apenas sucessos de bilheteria ou filmes de autor, mas oferecer um panorama representativo da produção cinematográfica brasileira contemporânea.
O resultado é uma programação que reúne obras de diferentes estados, gêneros e estilos, permitindo ao público francês descobrir a complexidade e a riqueza do cinema nacional.
O cinema como reflexo da sociedade brasileira
Ao longo da entrevista, Kátia ressaltou que o cinema também desempenha um papel importante ao refletir os desafios da sociedade brasileira.
Questões como violência, racismo, desigualdade e feminicídio aparecem em muitas produções contemporâneas, revelando um país que busca compreender a si mesmo e discutir suas próprias contradições.
Para ela, o cinema funciona como um espelho da realidade, permitindo que tanto brasileiros quanto estrangeiros tenham uma visão mais profunda do Brasil atual.
O reconhecimento internacional do cinema brasileiro
Nos últimos anos, o cinema brasileiro conquistou cada vez mais espaço no cenário internacional.
Kátia observa que o interesse pelo Brasil não se limita apenas ao cinema. A música brasileira está presente em diversos ambientes da França, enquanto séries e produções audiovisuais nacionais ganham destaque em plataformas de streaming.
Além disso, diretores brasileiros têm alcançado reconhecimento crescente nos festivais e nas salas de cinema europeias. Esse movimento contribui para fortalecer a imagem do Brasil como uma potência cultural.
Uma mensagem para os novos cineastas
Ao ser questionada sobre os conselhos para quem deseja seguir carreira no cinema, Kátia foi direta: é preciso acreditar nos próprios projetos e persistir.
Ela destacou que nenhum caminho artístico é fácil e que o sucesso raramente acontece da noite para o dia. O próprio festival é um exemplo disso. Quando foi criado, há quase três décadas, ela jamais imaginava que a iniciativa alcançaria tamanha relevância.
Para Kátia, realizar sonhos exige trabalho constante, dedicação e coragem para continuar mesmo diante das dificuldades.
O futuro do Festival de Cinema Brasileiro de Paris
Depois de quase 30 anos de existência, o festival continua crescendo e renovando sua missão: apresentar o melhor do cinema brasileiro ao público francês.
Realizado tradicionalmente no mês de abril, o evento se tornou uma vitrine importante para produções inéditas. Muitas vezes, filmes exibidos em Paris ainda não chegaram às salas brasileiras, oferecendo ao público uma oportunidade única de descobrir novos talentos e tendências do cinema nacional.
Mais do que um festival, o projeto criado por Kátia Adler tornou-se uma verdadeira ponte cultural entre Brasil e França, contribuindo para que o país seja conhecido não apenas por seus estereótipos, mas também por sua criatividade, diversidade e riqueza artística.
E, ao ouvir sua trajetória, fica claro que essa construção é resultado de quase três décadas de paixão, perseverança e amor pela cultura brasileira.
Veja a entrevista na íntegra, logo abaixo!






