Capa - Youtube - Paulo Ato - v2

Théâtre de l’Opprimé: o legado brasileiro que continua vivo em Paris

Paris é conhecida mundialmente por seus grandes museus, monumentos e teatros históricos. Mas poucos brasileiros sabem que, em pleno coração da capital francesa, existe um espaço que preserva uma das maiores contribuições do Brasil para a história do teatro mundial: o Théâtre de l’Opprimé.

Localizado no 12º arrondissement de Paris, próximo à Gare de Lyon, este teatro representa muito mais do que uma sala de espetáculos. Ele é um centro internacional de criação artística, formação e transformação social, mantendo vivo o pensamento do dramaturgo brasileiro Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido.

A origem de um teatro que mudou a forma de fazer arte

Durante o período da ditadura militar brasileira, Augusto Boal foi preso, perseguido e obrigado a deixar o Brasil. No exílio, desenvolveu uma proposta revolucionária: transformar o teatro em uma ferramenta de participação popular.

Sua ideia era simples, mas profundamente transformadora: o público deixaria de ser um espectador passivo para se tornar parte da ação.

Nascia o conceito do “espect-ator”, alguém que participa da cena, interfere na narrativa e propõe soluções para situações de injustiça, desigualdade ou violência apresentadas no palco.

Em 1979, Boal fundou em Paris o Centro do Théâtre de l’Opprimé, dando início a uma história que atravessaria décadas e fronteiras.

Rui Frati: quem mantém vivo o legado de Augusto Boal

Quando Augusto Boal retornou ao Brasil, o trabalho em Paris passou a ser conduzido por Rui Frati, diretor brasileiro radicado na França desde 1980.

Foi Rui quem encontrou o antigo galpão na Rue de Charolais e participou diretamente da transformação do espaço em um teatro.

Em 1996, o Théâtre de l’Opprimé abriu oficialmente suas portas no endereço atual.

Desde 1998, Rui Frati dirige o teatro, mantendo vivo o pensamento de Boal, mas também adaptando sua metodologia aos desafios contemporâneos.

Hoje, o espaço reúne artistas, educadores, pesquisadores, profissionais da saúde, assistentes sociais e instituições públicas em projetos que utilizam o teatro como instrumento de diálogo e transformação.

Muito além dos espetáculos

Quem visita o Théâtre de l’Opprimé rapidamente percebe que ali o palco é apenas uma parte do trabalho.

Antes de cada criação, a equipe realiza pesquisas, entrevistas e escuta ativa das comunidades envolvidas.

Os temas abordados incluem:

•⁠ ⁠racismo;
•⁠ ⁠imigração;
•⁠ ⁠violência contra as mulheres;
•⁠ ⁠saúde mental;
•⁠ ⁠educação;
•⁠ ⁠relações de trabalho;
•⁠ ⁠cidadania;
•⁠ ⁠exclusão social;
•⁠ ⁠direitos humanos.

Além das apresentações, o teatro desenvolve atividades em escolas, universidades, hospitais, centros sociais, associações e até estabelecimentos penitenciários.

Seu trabalho ultrapassa a França e chega a diversos países da Europa, América Latina, África e Ásia.

Um espaço aberto para novos artistas

Outro aspecto importante do Théâtre de l’Opprimé é seu apoio permanente à criação artística.

Todos os anos, dezenas de companhias profissionais utilizam o espaço para residências, ensaios e apresentações.

A programação privilegia especialmente:

•⁠ ⁠dramaturgia contemporânea;
•⁠ ⁠artistas emergentes;
•⁠ ⁠intercâmbio internacional;
•⁠ ⁠encontros entre diferentes gerações.

Em 2026, o teatro celebra 30 anos em seu endereço atual, consolidando-se como uma das mais importantes referências do teatro social na França.

A cultura brasileira em destaque

Durante minha visita ao Théâtre de l’Opprimé, também tive a oportunidade de conhecer o diretor, produtor e dramaturgo baiano Paulo Ato, responsável pelo Festival Internacional da Caatinga, realizado em Irecê, na Bahia.

Foi ele quem me apresentou ainda mais profundamente esse espaço e compartilhou um pouco do trabalho que desenvolve há décadas no sertão baiano.

Paulo esteve em Paris apresentando o projeto Cenas da Bahia, uma programação que reuniu:

•⁠ ⁠exposição fotográfica;
•⁠ ⁠gastronomia baiana;
•⁠ ⁠cinema brasileiro;
•⁠ ⁠patrimônio cultural;
•⁠ ⁠apresentações artísticas.

O objetivo foi aproximar franceses e brasileiros da riqueza cultural da Bahia, mostrando como a arte também pode impulsionar o turismo e fortalecer a identidade de um povo.

O Festival Internacional da Caatinga

Em agosto acontece a 9° FIT Caatinga, em Irecê (BA).

O evento reúne grupos brasileiros e internacionais, promovendo espetáculos, oficinas, intercâmbios culturais e debates sobre arte contemporânea.

Ao longo de sua trajetória, o festival já recebeu companhias da Dinamarca, Itália, Bélgica, Colômbia, Estados Unidos e do próprio Théâtre de l’Opprimé de Paris.

É uma iniciativa que demonstra como a produção cultural brasileira acontece muito além dos grandes centros e merece cada vez mais visibilidade.

Espetáculo A Travessia do grão profundo

Um Brasil que também se apresenta pela cultura

Quando pensamos na presença brasileira em Paris, normalmente lembramos da gastronomia, da música ou do carnaval.

Mas existe outro Brasil que também conquista respeito internacional: o Brasil da criação artística, do teatro, da literatura, do cinema e da pesquisa cultural.

Espaços como o Théâtre de l’Opprimé mostram que nossa contribuição para a cultura mundial permanece viva e continua inspirando artistas de diferentes países.

Mais do que preservar uma memória, esse teatro continua produzindo novas histórias todos os dias.

E talvez essa seja sua maior força: provar que a arte não serve apenas para entreter, mas também para provocar reflexão, criar diálogo e transformar realidades.

Esse é dos cantinhos em Paris onde você descobrirá um dos mais importantes legados culturais brasileiros fora do país.

Afinal, em meio aos monumentos históricos da Cidade Luz, existe também um pedaço do Brasil que continua iluminando pessoas através da arte.

Por Ivo Freitas
Guia de Turismo Credenciado pelo Ministério da Cultura da França

Compartilhe este post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *